MCCI11: Renda passiva e proteção contra a inflação

Uma análise aprofundada da carteira de CRIs high-grade, da gestão ativa e dos riscos do fundo imobiliário da JiveMauá.

Visão Geral e Posicionamento Estratégico

O Fundo de Investimento Imobiliário Mauá Capital Recebíveis Imobiliários, negociado na B3 S.A. – Brasil, Bolsa, Balcão sob o ticker MCCI11, é um fundo de investimento imobiliário (FII) de gestão ativa, classificado pela Anbima como "FII de Títulos e Valores Mobiliários". Lançado em dezembro de 2019, o fundo é gerido pela MAUÁ CAPITAL REAL ESTATE LTDA, entidade que resultou da fusão entre a Mauá Capital e a Jive Investments, formando a JiveMauá, e administrado pelo BTG PACTUAL SERVIÇOS FINANCEIROS S.A. DTVM.

O MCCI11 posiciona-se no mercado como um veículo de investimento focado primariamente na aquisição de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) de alta qualidade de crédito, conhecidos como high-grade. Desde o seu início, o fundo demonstrou um crescimento expressivo, alcançando um patrimônio líquido que orbita a marca de R$1,6 bilhão e uma base de mais de 108 mil cotistas, consolidando-se como um dos FIIs de CRI mais relevantes do mercado brasileiro. Sua estratégia central é a valorização das cotas e a distribuição de rendimentos por meio de uma carteira diversificada de ativos de crédito imobiliário.

Tese Central de Investimento

A análise aprofundada do MCCI11 revela uma tese de investimento robusta e multifacetada, fundamentada em três pilares estratégicos:

  1. Proteção Estrutural contra a Inflação: O alicerce da estratégia do fundo é a alocação predominante de seus recursos em CRIs indexados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esta característica confere ao portfólio uma proteção natural contra a erosão do poder de compra causada pela inflação, buscando oferecer ao cotista um fluxo de rendimentos com ganho real consistente ao longo do tempo. Em um ambiente macroeconômico brasileiro historicamente marcado por pressões inflacionárias, essa estratégia se mostra particularmente resiliente e atrativa.

  2. Foco em Qualidade de Crédito e Vantagem Competitiva na Originação: A gestão adota uma filosofia de investimento criteriosa, focando em ativos high-grade que apresentam estruturas de garantias sólidas e um perfil de risco de crédito controlado. O grande diferencial competitivo do MCCI11 reside na forte capacidade de originação própria da JiveMauá. Ao contrário de fundos que adquirem majoritariamente ativos no mercado secundário, a JiveMauá estrutura ativamente suas próprias operações de crédito, o que permite um controle mais rigoroso sobre os termos, a exigência de garantias mais robustas e uma "amarração" jurídica superior, mitigando o risco de crédito de forma proativa.

  3. Geração de Valor Adicional via Gestão Ativa e Alavancagem Estratégica: A gestão ativa do fundo não se limita à seleção de ativos. A equipe busca reciclar o portfólio de forma oportunística para capturar operações com remunerações mais elevadas em momentos favoráveis de mercado. Adicionalmente, o fundo utiliza alavancagem financeira, por meio de operações compromissadas, como uma ferramenta para potencializar os retornos. Essa estratégia consiste em captar recursos a um custo inferior à remuneração dos ativos adquiridos, gerando um spread adicional que beneficia diretamente o resultado distribuível aos cotistas.

Principais Conclusões da Análise

O MCCI11 emerge como uma alternativa de investimento sólida para o investidor que busca uma fonte de renda mensal recorrente, com a vantagem da correção monetária pela inflação. Um fator notável é que o fundo tem sido negociado consistentemente com um deságio em relação ao seu valor patrimonial (relação Preço/Valor Patrimonial, ou P/VP, inferior a 1,0), o que pode sinalizar uma oportunidade de entrada para investidores de longo prazo que confiam na qualidade da carteira e na competência da gestão.

Contudo, é imperativo que o investidor esteja ciente dos riscos inerentes a este tipo de ativo. O risco de crédito, embora mitigado pela estratégia high-grade, permanece como o principal fator de atenção. O risco de mercado, decorrente de flutuações nas taxas de juros e na própria inflação, pode impactar tanto a cotação quanto os rendimentos. Por fim, o uso de alavancagem, embora benéfico para o retorno, amplifica o perfil de risco do fundo, exigindo um monitoramento constante da saúde financeira dos ativos em carteira.

Perfil da Gestora e do Administrador

Gestora: MAUÁ CAPITAL REAL ESTATE LTDA (JiveMauá)

A gestão do MCCI11 é conduzida pela Mauá Capital, que, após sua fusão com a Jive Investments, deu origem à JiveMauá. Esta união estratégica representa um dos maiores trunfos do fundo. A JiveMauá combina a vasta experiência da Mauá Capital no setor imobiliário com a profunda expertise da Jive em crédito privado, recuperação de créditos e ativos estressados (distressed assets). Essa sinergia resulta em uma capacidade institucional robusta para originar, analisar, estruturar e gerir ativamente operações de crédito imobiliário complexas, conferindo uma vantagem competitiva significativa. A JiveMauá é uma gestora de escala, com mais de R$21 bilhões em ativos sob gestão (AUM) e uma base de mais de 265 mil investidores, o que denota sua relevância e solidez no mercado de investimentos alternativos no Brasil.

Administrador: BTG PACTUAL SERVIÇOS FINANCEIROS S.A. DTVM

A administração do fundo está a cargo do BTG Pactual, uma das mais proeminentes instituições financeiras da América Latina. O administrador desempenha funções cruciais de governança e controle, sendo responsável pela custódia dos ativos, escrituração das cotas, cálculo do valor patrimonial e garantia de conformidade com todas as normas regulatórias da CVM e da Anbima. A presença de um administrador de primeira linha como o BTG Pactual confere um elevado grau de segurança operacional e governança corporativa à estrutura do MCCI11.

Política de Investimentos e Filosofia de Gestão

A política de investimentos do MCCI11, conforme seu regulamento, visa primordialmente auferir rendimentos e ganhos de capital por meio da aquisição de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), com a estipulação de que o fundo deve investir, no mínimo, 67% de seu patrimônio nesse tipo de ativo.

A filosofia de gestão é caracterizada pela gestão ativa e por uma estratégia predominante de buy and hold. Isso significa que, em vez de buscar ganhos de capital por meio da negociação frequente de ativos no mercado secundário, a gestão tende a manter os CRIs em carteira até o seu vencimento. O foco, portanto, está na captura do fluxo de juros e correção monetária gerado pelos ativos. Essa abordagem tende a resultar em uma distribuição de dividendos mais estável e previsível, alinhada aos objetivos de investidores que buscam renda passiva.

A ênfase na "originação própria" é um diferencial estratégico fundamental. Enquanto muitos fundos atuam como meros compradores de CRIs já estruturados por terceiros, a capacidade da JiveMauá de conceber e estruturar suas próprias operações de crédito permite um envolvimento direto na negociação de taxas, na definição de cláusulas contratuais e, crucialmente, na exigência de pacotes de garantias mais robustos. Esse processo confere um controle muito maior sobre o risco de crédito de cada operação. Um exemplo prático dessa capacidade foi o investimento na cota sênior do FII Porto, a primeira operação originada e estruturada em conjunto pela Mauá Capital e Jive Investments após a fusão, demonstrando a materialização das sinergias esperadas.

Estrutura de Taxas e Impacto no Retorno

A estrutura de remuneração da gestão e da administração do MCCI11 é composta por três elementos principais, cujos valores estão alinhados com as práticas de mercado para FIIs de CRI de gestão ativa:

  • Taxa de Administração: 0,20% ao ano, calculada sobre o patrimônio líquido do fundo.

  • Taxa de Gestão: 0,80% ao ano, também calculada sobre o patrimônio líquido.

  • Taxa Total Consolidada: A soma das taxas de administração e gestão resulta em uma taxa total de 1,00% ao ano.

  • Taxa de Performance: 20% sobre o rendimento que exceder 100% da variação acumulada do CDI.

A escolha do CDI como referencial (benchmark) para a taxa de performance merece uma análise mais aprofundada. Dado que a carteira do MCCI11 é majoritariamente indexada ao IPCA, podem ocorrer períodos de descasamento. Por exemplo, em um cenário de CDI elevado e IPCA mais baixo, o fundo pode apresentar um bom retorno real, mas não necessariamente superar o benchmark, não gerando taxa de performance. Inversamente, em um cenário de IPCA alto e CDI em queda, a performance pode ser acionada com mais facilidade. Embora possa haver esse desalinhamento de curto prazo, a meta de longo prazo de superar o CDI com uma carteira de crédito high-grade alinha os interesses da gestão com os do cotista, que busca um retorno superior ao custo de oportunidade da renda fixa de baixo risco.

Análise Aprofundada do Portfólio de Ativos

Alocação Estratégica da Carteira

A estratégia de alocação do MCCI11 é concentrada em ativos de crédito, com uma parcela minoritária destinada a outros FIIs e a uma posição de caixa para liquidez e oportunidades. Com base nas informações mais recentes disponíveis, a distribuição do patrimônio líquido (PL) do fundo se apresenta da seguinte forma:

  • Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs): Esta é a classe de ativos predominante, representando entre 82% e 84% do PL do fundo. Essa alta concentração reflete o foco principal do MCCI11 como um fundo de "papel".

  • Cotas de outros FIIs: O fundo investe uma parcela de seus recursos em outros fundos imobiliários, majoritariamente de recebíveis. Esta alocação, que corresponde a cerca de 12% do PL, permite diversificar a carteira e acessar oportunidades de investimento em ativos que a gestão julga possuir uma boa relação de risco e retorno, muitas vezes por meio de ofertas restritas a investidores profissionais.

  • Caixa e Equivalentes: O fundo mantém uma posição em caixa para fazer frente às despesas operacionais, gerenciar o fluxo de pagamentos e aproveitar novas oportunidades de alocação. Dados do Status Invest indicavam uma posição de caixa de 7,01%, totalizando aproximadamente R$110,7 milhões.

Composição da Carteira de CRI

A análise da carteira de CRIs é o cerne da avaliação do MCCI11, pois é dela que emanam a maior parte dos rendimentos e dos riscos.

  • Indexadores e Taxas: A carteira é esmagadoramente indexada ao IPCA, reforçando sua característica de proteção contra a inflação. As taxas de remuneração (spreads) acima da inflação são atrativas. O relatório gerencial de junho de 2025 mencionava um spread médio de 8,6% ao ano. Outras análises e relatórios históricos apontam para taxas médias na faixa de IPCA + 7,2% a IPCA + 7,6% ao ano. Essa variação ao longo do tempo é natural e reflete tanto as condições de mercado no momento das alocações quanto a reciclagem ativa da carteira pela gestão. A duration da carteira, que mede o prazo médio ponderado de recebimento dos fluxos de caixa e indica a sensibilidade do portfólio a variações nas taxas de juros, foi reportada em 4,9 anos, um nível considerado moderado.

  • Alocação Setorial e Devedores: O portfólio de CRIs é diversificado em múltiplos setores da economia, com maior exposição aos segmentos comercial e logístico. Análises mencionam devedores como Casas Bahias, Newport e Superfrio. Dados mais antigos, de fevereiro de 2020, já mostravam uma diversificação em setores como corporativo, logístico, residencial e comercial, com emissores como ISEC, Habitasec e RB Capital , indicando a consistência da estratégia de diversificação setorial ao longo do tempo.

É importante ressaltar que o acesso direto aos anexos dos relatórios gerenciais mais recentes, que detalham cada operação de CRI individualmente, não foi possível no escopo desta análise. A tabela a seguir, portanto, é uma representação exemplificativa da estrutura da carteira, baseada em dados consolidados e históricos disponíveis.

Detalhamento Exemplificativo da Carteira de CRI

Ativo (CRI)

Segmento

% PL (Exemplo)

Indexador

Taxa (Spread)

Duration (Anos)

LTV¹ (%)

CB III

Corporativo

13,5%

IPCA

+ 6,00%

6,8

52,0%

CB II

Logístico

12,9%

IPCA

+ 7,00%

5,8

52,0%

CB I

Logístico

7,5%

IPCA

+ 7,00%

6,1

52,0%

FL2

Residencial

6,2%

IPCA

+ 6,50%

4,8

48,0%

Evolution

Comercial

5,9%

IPCA

+ 6,25%

6,4

40,6%

Green Towers

Comercial

5,2%

IGPM

+ 4,75%

6,6

67,1%

Business Park

Logístico

4,0%

IGPM

+ 6,10%

5,2

29,3%

Vogue Square

Corporativo

3,6%

IPCA

+ 12,00%

3,7

22,8%

Fonte: Compilação baseada em dados históricos de. Os valores são ilustrativos da estrutura do portfólio.

¹LTV (Loan-to-Value): Relação entre o valor do empréstimo e o valor da garantia. Um LTV mais baixo indica uma maior cobertura da dívida pela garantia.

Análise de Alavancagem (Operações Compromissadas)

O MCCI11 utiliza ativamente a alavancagem financeira como uma estratégia para otimizar seus retornos. Uma análise da Genial Investimentos identificou um montante de R$274 milhões em operações compromissadas, o que representava 23% do patrimônio líquido do fundo na ocasião.

A mecânica por trás dessa estratégia é relativamente simples: a gestão toma recursos emprestados no mercado, geralmente a um custo atrelado ao CDI mais um pequeno spread, e aloca esses recursos na compra de CRIs que oferecem uma remuneração superior, como IPCA mais um spread robusto. A diferença positiva entre o rendimento gerado pelo ativo e o custo da dívida é apropriada pelo fundo, aumentando o resultado a ser distribuído aos cotistas.

Contudo, essa estratégia introduz um risco adicional significativo. A alavancagem funciona como uma faca de dois gumes: assim como potencializa os ganhos, ela também amplifica as perdas. Em um cenário adverso, como a inadimplência de um CRI adquirido com recursos de uma operação compromissada, o fundo ainda teria a obrigação de honrar o pagamento da dívida. Isso poderia levar a uma corrosão mais acelerada do patrimônio líquido do que se o investimento tivesse sido feito apenas com capital próprio. Portanto, o nível de alavancagem de 23% do PL é um fator que o investidor deve monitorar de perto, depositando confiança na capacidade da gestão de selecionar ativos de crédito de altíssima qualidade para compor a parcela alavancada da carteira.

Desempenho Histórico e Análise de Dividendos

Análise de Rentabilidade e Performance

O desempenho do MCCI11 tem sido positivo, especialmente quando se considera a valorização da cota somada aos dividendos distribuídos. Diferentes fontes apontam para uma performance robusta no ano corrente, com valorizações que variam de 11,93% a 14,86%, dependendo da data de corte da análise. Nos últimos 12 meses, a valorização da cota foi reportada em 5,87%. É crucial que o investidor analise a rentabilidade total (valorização da cota + dividendos) para ter uma visão completa do retorno do investimento. Gráficos comparativos de rentabilidade demonstram o desempenho do fundo em relação a importantes benchmarks de mercado, como o IFIX (índice de fundos imobiliários), o IBOVESPA e o CDI, permitindo uma avaliação do retorno ajustado ao risco.

Análise Aprofundada de Proventos (Dividendos)

A distribuição de rendimentos mensais é o principal atrativo do MCCI11 para investidores focados em renda. O fundo possui um histórico sólido de pagamentos.

  • Histórico de Distribuição: O dividendo mais recente, referente aos resultados de julho de 2025 e pago em agosto, foi de R$1,00 por cota. Este valor representou um aumento de 11,1% em relação ao pagamento do mês anterior, que foi de R$0,90 por cota, sinalizando uma melhora nos resultados do fundo.

  • Dividend Yield (DY): O Dividend Yield anualizado do MCCI11 tem se mantido em patamares consistentemente atrativos, frequentemente acima de 12%. As fontes consultadas reportam um DY de 12 meses variando entre 12,22% e 12,24%. Algumas métricas, que podem usar metodologias de cálculo diferentes, chegam a apontar um DY de 14,11%.

  • Fontes de Rendimento e Gestão de Reservas: Um aspecto relevante da gestão de dividendos do MCCI11 é a sua política de constituição de reservas. No último relatório gerencial referente a junho, a gestão destacou que, ao longo do primeiro semestre, conseguiu ampliar seu volume de resultados acumulados e não distribuídos de R$0,34 para R$0,63 por cota. A decisão de distribuir R$1,00 por cota em agosto, valor que estava no topo do guidance projetado pela própria gestão (entre R$0,90 e R$1,00), concomitantemente ao aumento das reservas, é um forte indicativo de saúde financeira. Isso demonstra que o fundo está gerando resultados acima do que distribui, o que confere maior segurança e previsibilidade aos pagamentos futuros. Essa prática de suavização dos dividendos é uma filosofia da gestora, visando evitar oscilações bruscas nos rendimentos mensais.

Histórico de Distribuição de Dividendos (Últimos 3 Meses)

Data Base

Data de Pagamento

Valor por Cota (R$)

Cotação Base (R$)

Dividend Yield Mensal (%)

12/08/2025

19/08/2025

1,00

86,50

1,16%

10/07/2025

17/07/2025

0,90

87,85

1,02%

11/06/2025

18/06/2025

0,90

84,00

1,07%

Análise de Valuation e Métricas de Mercado

Análise do Preço sobre Valor Patrimonial (P/VP)

Uma das métricas de valuation mais importantes para FIIs é a relação entre o preço de mercado da cota e o seu valor patrimonial (P/VP). O MCCI11 tem sido negociado de forma consistente com um deságio, ou seja, com um P/VP inferior a 1,0. As fontes de dados indicam um P/VP na faixa de 0,90 a 0,91. O valor patrimonial por cota é reportado em torno de R$93,12 a R$94,37, enquanto a cota de mercado tem flutuado na faixa de R$84 a R$87.

A existência desse deságio crônico não é exclusiva do MCCI11 e pode ser atribuída a uma combinação de fatores complexos que refletem a percepção do mercado:

  • Percepção de Risco de Crédito: O mercado pode estar embutindo no preço um prêmio de risco adicional pela exposição à carteira de crédito. Eventos de inadimplência em outros fundos do setor, mesmo que não relacionados ao MCCI11, podem ter afetado a confiança geral dos investidores em FIIs de "papel", levando a uma precificação mais conservadora.

  • Marcação a Mercado e Sensibilidade aos Juros: O valor patrimonial dos CRIs é atualizado periodicamente com base nas variações das taxas dos títulos públicos de referência, como as NTN-Bs. Em períodos de "abertura" da curva de juros (ou seja, aumento das taxas de juros futuras), o valor presente dos fluxos de pagamento dos CRIs diminui, o que reduz o valor patrimonial. Frequentemente, a cota de mercado reage de forma ainda mais intensa a essas variações por aversão ao risco, ampliando o deságio.

  • Precificação do Risco de Alavancagem: O mercado pode estar descontando o valor da cota para compensar o risco adicional introduzido pela alavancagem de 23% do PL. Investidores podem exigir um retorno (yield) maior para investir em um fundo alavancado, o que se traduz em um preço de cota menor.

  • Oportunidade de Valor: Do ponto de vista do investidor, comprar cotas com deságio pode representar uma oportunidade. Significa adquirir uma participação nos ativos subjacentes (a carteira de CRIs) por um preço inferior ao seu valor contábil. Isso não apenas potencializa o dividend yield on cost (o rendimento calculado sobre o preço de compra), mas também oferece uma margem de segurança, pois o preço de mercado teria que subir até o valor patrimonial para eliminar o desconto.

Liquidez e Negociação

O MCCI11 demonstra uma liquidez robusta no mercado secundário, o que é um fator positivo para os investidores. O volume médio diário de negociação é consistentemente reportado na casa de milhões de reais, com valores que variam de R$2,9 milhões a R$4,2 milhões, dependendo do período analisado. Essa liquidez elevada garante que os investidores possam montar ou desmontar suas posições com relativa facilidade, sem causar um impacto desproporcional no preço da cota.

Métricas de Valuation Comparativas

Ticker

Patrimônio Líquido (R$ B)

Liquidez Média Diária (R$ M)

Dividend Yield (12M)

P/VP

Taxa Adm./Gestão Total

MCCI11

1,6

~3,5

12,24%

0,91

1,00%

IRDM11

3,0

~4,0

15,43%

0,76

0,17% (Adm.)*

CPTS11

2,9

~8,0

12,99%

0,82

(não informado)

HGCR11

1,5

~3,0

13,10%

0,96

(não informado)

RBRR11

1,4

~2,5

12,40%

0,95

(não informado)

*A taxa do IRDM11 parece incluir apenas a administração; a taxa de gestão não foi encontrada nos snippets, o que pode distorcer a comparação direta.

Avaliação de Riscos e Fatores Mitigantes

Risco de Crédito

O risco de crédito, que é a possibilidade de os devedores dos CRIs não cumprirem com suas obrigações de pagamento, é o risco mais proeminente para o MCCI11. A principal estratégia de mitigação adotada pela gestão é o foco em ativos high-grade, ou seja, operações com devedores de boa qualidade creditícia e, fundamentalmente, com estruturas de garantias robustas.

Um estudo de caso prático que ilustra a eficácia dessa mitigação é o do CRI Vogue Square, que representava 2,3% do PL do fundo. Quando o devedor dessa operação entrou com um pedido de recuperação judicial, o mercado poderia ter reagido negativamente. No entanto, uma análise mais profunda da estrutura da operação, conforme detalhado pela Genial Investimentos, revelou a solidez das garantias. O hotel que serve de lastro para o CRI foi dado em alienação fiduciária, um mecanismo que impede que o ativo entre na massa falida da empresa em recuperação. Em caso de inadimplência, o fundo pode executar a garantia de forma independente. Além disso, o valor de avaliação do imóvel era três vezes superior ao valor da dívida, criando uma "gordura" substancial para absorver perdas e negociar uma solução.

Este caso prático demonstra que a qualidade da estruturação jurídica e das garantias de uma operação de crédito é, muitas vezes, mais importante do que apenas a saúde financeira do devedor. Isso valida a tese de que a expertise da JiveMauá em originar e "amarrar" bem suas operações é um fator mitigante crucial para o risco de crédito da carteira.

Risco de Mercado e de Taxa de Juros

O MCCI11 está exposto a riscos macroeconômicos que podem afetar tanto o valor de sua cota quanto os rendimentos distribuídos.

  • Sensibilidade à Inflação: Com uma carteira predominantemente atrelada ao IPCA, o fundo se beneficia diretamente de períodos de inflação mais alta, pois tanto a correção monetária do saldo devedor quanto os juros pagos aumentam, elevando os rendimentos. Por outro lado, um cenário de inflação muito baixa ou deflação poderia reduzir significativamente os dividendos distribuídos.

  • Sensibilidade aos Juros Futuros: A cotação do MCCI11 no mercado secundário é inversamente correlacionada com as taxas de juros futuras. Quando as taxas dos títulos públicos de longo prazo (NTN-Bs) sobem, os investidores passam a exigir um prêmio de risco maior para investir em ativos de crédito privado como os CRIs. Para que o dividend yield do fundo se ajuste a essa nova realidade de mercado, o preço da cota tende a cair. Portanto, o fundo é mais atrativo em cenários de queda ou estabilidade nos juros longos.

Risco de Alavancagem

Conforme detalhado anteriormente, a utilização de 23% de alavancagem sobre o PL amplifica os resultados do fundo. Embora essa estratégia tenha o potencial de aumentar os dividendos em cenários normais, ela também magnifica as perdas em caso de estresse de crédito. Uma inadimplência em um ativo alavancado teria um impacto negativo desproporcional no patrimônio do cotista. O investidor deve, portanto, estar ciente e confortável com este nível de endividamento e o risco adicional que ele acarreta, confiando na capacidade da gestão de controlar esse risco.

Cenário Competitivo e Posicionamento de Mercado

Análise Comparativa com Pares

O MCCI11 está inserido no competitivo segmento de FIIs de "papel" com foco em crédito high-grade. A comparação com seus principais pares é essencial para avaliar seu posicionamento relativo.

  • IRDM11 (Iridium Recebíveis): Um dos maiores e mais populares FIIs de CRI do mercado, com mais de 272 mil cotistas. Apresenta um deságio ainda maior que o do MCCI11 (P/VP de ~0,76) e uma estratégia de alocação mais híbrida, com uma parcela relevante (16,77%) investida em cotas de outros FIIs.

  • CPTS11 (Capitânia Securities): Outro gigante do setor, com mais de 356 mil cotistas e altíssima liquidez. Também negocia com um deságio significativo (P/VP de ~0,82) e possui uma carteira pulverizada de CRIs.

  • HGCR11 (CSHG Recebíveis): Este fundo se destaca por negociar com um P/VP mais próximo da unidade (0,96), o que pode indicar uma percepção de risco ligeiramente menor pelo mercado ou uma carteira com características diferentes. Possui uma base de mais de 100 mil cotistas.

  • RBRR11 (RBR Rendimento High Grade): Concorrente direto do MCCI11, com um posicionamento explícito no segmento high-grade. Seu P/VP também é mais próximo de 1 (0,95) e seu portfólio é altamente concentrado em CRIs de alta qualidade (84,1%).

Matriz Comparativa de FIIs de Papel

Métrica

MCCI11

IRDM11

CPTS11

HGCR11

RBRR11

Ticker

MCCI11

IRDM11

CPTS11

HGCR11

RBRR11

Gestora

JiveMauá

Iridium

Capitânia

CSHG

RBR Asset

Patrimônio Líquido (R$ B)

1,6

3,0

2,9

1,5

1,4

Nº de Cotistas

108.383

272.434

356.073

100.486

126.284

Liquidez Média Diária (R$ M)

~3,5

~4,0

~8,0

~3,0

~2,5

Taxa Total (%)

1,00%

0,17%*

n/d

n/d

n/d

P/VP

0,91

0,76

0,82

0,96

0,95

DY (12M %)

12,24%

15,43%

12,99%

13,10%

12,40%

Estratégia Principal

CRI High Grade

CRI + FIIs

CRI Pulverizado

CRI

CRI High Grade

Nível de Alavancagem (%)

~23%

n/d

n/d

n/d

n/d

A matriz comparativa evidencia que o MCCI11, embora menor em número de cotistas que IRDM11 e CPTS11, possui um porte e liquidez relevantes. Seu P/VP está em um nível intermediário, com um deságio menor que o de IRDM11 e CPTS11, mas maior que o de HGCR11 e RBRR11. Seu dividend yield é competitivo dentro do grupo. O principal diferencial qualitativo do MCCI11 permanece sendo a forte capacidade de originação própria da JiveMauá e o uso estratégico de alavancagem, fatores que não são facilmente quantificáveis nesta tabela.

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Perspectivas Futuras e Conclusão do Analista

Cenário Macroeconômico e Implicações

O desempenho futuro do MCCI11 está intrinsecamente ligado à evolução do cenário macroeconômico brasileiro.

  • Inflação (IPCA): As projeções para o IPCA são um dos principais vetores de resultado para o fundo. Um cenário de inflação persistentemente em patamares elevados, mesmo que dentro das metas, tende a sustentar um fluxo de rendimentos nominalmente robusto para o MCCI11. Por outro lado, um processo de desinflação acentuado ou períodos de deflação representam um risco para o nível de dividendos distribuídos.

  • Taxa de Juros (Selic): A trajetória da taxa Selic, definida pelo Banco Central, impacta o fundo de múltiplas maneiras. Primeiramente, influencia o custo de captação para suas operações de alavancagem, caso parte delas seja atrelada ao CDI. Em segundo lugar, e de forma mais ampla, a Selic serve como referência para o custo de oportunidade dos investimentos. Em ciclos de queda da taxa Selic, a atratividade relativa de ativos como os FIIs tende a aumentar, o que pode impulsionar a demanda por cotas no mercado secundário, levando a uma potencial valorização e à redução do deságio P/VP. O inverso ocorre em ciclos de alta de juros.

Perspectivas para a Gestão do Fundo

O sucesso contínuo do MCCI11 dependerá da habilidade da gestão em navegar o ambiente de mercado e executar sua estratégia. A capacidade da JiveMauá de continuar originando CRIs de alta qualidade com spreads atrativos será o principal motor de criação de valor. A gestão disciplinada da alavancagem, ajustando o nível de endividamento conforme as condições de mercado e o perfil de risco da carteira, será um ponto de atenção constante para os investidores. Adicionalmente, o fundo possui um histórico de crescimento via novas emissões de cotas. A viabilidade de futuras captações, que permitiriam ao fundo crescer e diversificar ainda mais sua carteira, está condicionada à negociação da cota de mercado em um patamar igual ou superior ao seu valor patrimonial, a fim de evitar a diluição dos atuais cotistas.

Síntese Final e Conclusão Analítica

A análise detalhada do Fundo de Investimento Imobiliário Mauá Capital Recebíveis Imobiliários (MCCI11) permite delinear um perfil claro de seus atributos, riscos e posicionamento.

Pontos Fortes:

  • Gestão Qualificada: A JiveMauá possui uma equipe robusta com profunda expertise combinada em mercado imobiliário e análise de crédito, destacando-se pela capacidade de originação própria.

  • Portfólio de Qualidade: A carteira é focada em ativos de crédito high-grade e predominantemente indexada ao IPCA, oferecendo proteção contra a inflação.

  • Renda Atrativa: O fundo apresenta um histórico de distribuição de dividendos consistentes e em patamares elevados.

  • Valuation: A negociação com deságio sobre o valor patrimonial pode representar um ponto de entrada atrativo e uma margem de segurança.

Pontos de Atenção:

  • Risco de Crédito: Inerente a qualquer fundo de "papel", embora mitigado pela estratégia da gestão.

  • Risco de Mercado: A cotação e os rendimentos são sensíveis às flutuações da inflação e das taxas de juros.

  • Risco de Alavancagem: O uso de endividamento para potencializar retornos aumenta o perfil de risco geral do fundo.

Em conclusão, o MCCI11 se posiciona como um veículo de investimento sólido e bem gerido, adequado para o investidor que busca exposição ao mercado de crédito imobiliário com o objetivo de gerar renda passiva recorrente e proteger seu capital da inflação. O deságio atual da cota em relação ao seu valor patrimonial pode constituir uma oportunidade de investimento de longo prazo. A confiança no fundo está, em última análise, atrelada à confiança na capacidade da equipe de gestão da JiveMauá de manter a disciplina na seleção de ativos, gerir prudentemente a alavancagem e navegar os ciclos macroeconômicos. A resiliência demonstrada na estruturação de operações complexas, como a do CRI Vogue Square, serve como um testemunho positivo da competência da gestão. Recomenda-se ao investidor o acompanhamento contínuo dos relatórios gerenciais para monitorar a evolução da carteira de crédito, a estratégia de alavancagem e o posicionamento do fundo frente às condições de mercado.

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